
Neste ano, a pesquisa de opinião WHO encomendada pelo Conselho Federal de Psicologia sobre o perfil do psicólogo brasileiro completa dez anos. A situação retratada na pesquisa era lastimável e não sei de nenhuma medida tomada para mudança daquele quadro.
Recentemente, este blog fez uma estimativa de quanto custa manter um consultório aqui em Brasília. Agora, eu farei um breve resumo da vida financeira de um psicólogo clínico que ingressa no mercado ao sair da faculdade.
Em primeiro lugar, as clínicas de modo geral não assinam carteira de trabalho, mas firmam contratos de prestação de serviços. A maioria oferece 50% do valor líquido da sessão. Supondo que a média (otimista!) de honorários dos convênios é de R$ 35, o psicólogo deve receber por hora trabalhada aproximadamente R$ 15. Porém, o “salário” de quase R$ 2 mil desse psicólogo não contempla plano de saúde, pensão em caso de acidente/morte, auxílio transporte, vale refeição, previdência, férias… nada.
Lembramos que o profissional recém formado deve se submeter a essas condições, no mínimo, por dois anos, pois antes disso não conseguirá se credenciar em nenhum plano de saúde como PJ (Pessoa Jurídica). Quando sair da faculdade, o psicólogo deve lembrar de iniciar o seu curso de especialização credenciado pelo CFP, que deve lhe custar aproximadamente R$ 450 por mês. Vamos dizer que o seu “salário” deve cair para uns R$ 1,5 mil, se ele atender os 40 pacientes/clientes da semana. E, lembro, sem direitos trabalhistas.
O grande problema do psicólogo é que a sua corporação não se mobiliza como fez, por exemplo, a dos médicos. Os pediatras pararam em Brasília diante de uma situação melhor que essa, pois eu até imagino que um pediatra receba R$ 15 por consulta, mas poucos realizam uma consulta durante uma hora. O psicólogo atende sistematicamente de hora em hora. O que me impressiona é que, em plena capital federal, não há sindicato de psicólogos e o Sistema Conselhos já declarou em várias ocasiões que não é sua atribuição mediar reuniões entre planos de saúde e psicólogos credenciados.
Cada vez mais, recebo notícias de clínicas fechando e psicólogos abandonando a profissão para estudarem para concurso. Embora eu tenha uma situação mais confortável, também atravesso momentos de dúvida por causa da nossa permanente “crise” profissional.
Eu sei que essa mensagem não é estimulante para quem está saindo da faculdade, mas revelo a forte motivação que leva o psicólogo a trocar o consultório pela sala de cursinho: informalidade e falta de iniciativas das entidades da psicologia para mudar essa situação.
Se você quiser contar a sua história na psicologia ou simplesmente deixar um comentário, será bem vindo(a).

