Artigo traduzido da seção Ideas da revista cultural Ñ, do portal argentino Clarín.com
http://www.revistaenie.clarin.com/ideas/dsm-dsm5-psicologia-mercado-poder-diagnostico-psiquiatrico_0_664133801.html
DSM-5 e o universo psi: diagnósticos à medida do mercado?
A próxima edição do Manual de estatísticas e diagnóstico para as desordens mentais (DSM-5), bíblia da psiquiatria e psicologia cognitiva nos EUA, considera o luto e a rebeldia como doenças. “É uma imposição para patologizar e medicalizar a comunidade”, diz o psicanalista argentino Mario Goldenberg.
Por Pablo E. Chacón
MARKETING OU CIÊNCIA. Desordens mentais à medida dos laboratórios?
Nos Estados Unidos, paraíso da ciência aplicada e das tecnologias de ponta, nasceu em 1952 o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM), bíblia da psiquiatria e da psicologia cognitiva que já tem quatro edições e uma quinta, pronta para comercialização em maio de 2013. Contudo, o volume (do qual se prevê uma primeira tiragem de um milhão de exemplares) é notícia quase com um ano de antecipação, por razões diversas, entre as mais conhecidas, a “escolha” de novos transtornos que, edição após edição, se somam a uma lista que mais parece uma péssima imitação do livro dos seres imaginários ao qual Jorge Luis Borges durante um tempo dedicou seu trabalho.
Sabe-se que o marketing e as estatísticas são tomados como fundamento moral na chamada democracia do norte, tanto em questões eleitorais, científicas como culturais. E que a saúde é um insumo, do qual estão excluídos 60% da população desse país, que tem a particularidade de cruzar os três registros: políticos, científicos e culturais. Como ignorar então que o luto, a tristeza que acompanha a perda de alguém muito querido será considerada a partir do próximo ano uma “doença”, assim como a rebeldia, batizada de “transtorno de oposição desafiante”, se para ambos os males também existirão seus correspondentes placebos farmacológicos, essa próspera atividade, quase tão quanto o tráfico de armas e de drogas (ilegais)? Entretanto, versões do DSM-5 já estão sendo usadas nos centros de saúde -de várias partes do mundo- sem terem sido apresentadas ainda à sociedade.
Nestes momentos são aproximadamente 300 os transtornos identificados por um grupo de “notáveis” (médicos, psiquiatras, psiquiatras policiais), mas a escolha de luto e rebeldia como novíssimos “distúrbios emocionais” que tornou pública um par de semanas atrás a revista especializada The Lancet, caiu melhor nos laboratórios que entre certos profissionais que tentam outro tipo de trabalho nos EUA, e sem falar na Europa ou América do Sul, que se converteu, durante estes anos, num dos focos da resistência à medicalização da vida que propõe o manual. Digamos assim: o DSM é um instrumento para provocar um curto-circuito entre as paixões e a limitação que constitui o ser vivo: tal como se fosse uma máquina.
Mas o peso do DSM reside no que se converteu numa referência não só para médicos (que os tomam como ajuda para estabelecer diagnósticos) ou planos de saúde (que se orientam por suas normas), senão para boa parte da comunidade.
Em entrevista ao Ñ digital, o psicanalista argentino Mario Goldenberg, foi explícito: “o próximo DSM, elaborado pela Associação Psiquiátrica Americana, é uma imposição para patologizar e medicalizar a comunidade; uma nova reformulação classificatória que busca ampliar através do discurso da ciência as doenças mentais. Transtornos, disforias, disfunções. Ou seja, tenta, sob um disfarce de termos científicos, uma classificação do inclassificável: o padecimento”.
O manual, considerado toda uma instituição, tem a sua influência, se se leva em conta, por exemplo, que até 1974 a homossexualidade figurava na lista de desordens; e que agora que debate assuntos complicados como a identidade de gênero em relação à transexualidade, ou a compulsão às compras ou ao sexo, nestes casos, “invenções” diagnósticas que deram lugar a prósperos serviços e negócios imobiliários. A questão é complexa, ao ponto que para evitar pressões – ou aceitá-las (da indústria farmacêutica, planos de saúde, juízes, grupos religiosos e políticos)- a equipe assessora foi obrigada a firmar uma cláusula de confidencialidade, que como indicam as notícias, não existe. Por que vazaram informações? A hipótese mais consistente sustenta que as residências psiquiátricas se juntam para que os dissidentes vejam com preocupação o altíssimo nível de medicação aos quais se submetem os pacientes.
Psicanalista também, Osvaldo Arribas diz que “parece ser um fato que no afã classificatório do DSM dos Estados Unidos não se quer deixar fora nada ‘do que nos apresenta ou pode nos apresentar’. Este afã classificatório, ‘científico’, a cada sintoma um ‘transtorno’, é próprio dos EUA, onde, ao mesmo tempo, se rejeita mais e mais a psicanálise. E um claro exemplo é Siri Hustvedt, a mulher de Paul Auster, autora de ‘A mulher temerosa’ e ‘Elegia a um americano’. No primeiro, fala de um ataque histérico que a acometeu falando numa homenagem ao seu pai, faz uma análise de distintas opiniões científicas e conta que sempre lhe deu pânico… se analisar. No outro, o protagonista é um analista!”.
Nascido na Califórnia mas radicado na Grã Bretanha, o lacaniano Darian Leader acaba de publicar -contra a doxa sanitária- “A moda negra. Luto, depressão e melancolia” (editorial Sexto Piso): “Neste livro argumento que devemos renunciar ao conceito de depressão como está marcado na atualidade. Em vez disso, devemos ver o que chamamos depressão como um conjunto de sintomas que derivam de histórias humanas complexas e sempre distintas. Estas histórias involucrarão as experiências de separação e perda (…) Com o propósito de dar sentido à forma em que temos respondido a tais experiências, precisamos ter as ferramentas conceituais corretas; e estas, acredito, podem ser encontradas nas velhas noções de luto e melancolia”, escreve.
Psicanalista e escritor argentino, radicado na Espanha desde 1976, Gustavo Dessal, se coloca contra este dispositivo que vê o sujeito como um robô: “A matança perpetrada há poucos dias no Afganistão por um soldado americano da base Lewis-McChord de Seattle, fez saltar o escândalo dos diagnósticos que os psiquiatras militares usam na hora de avaliar os transtornos psíquicos de seus pacientes”.
“A base, que tem o recorde nos Estados Unidos de soldados com suicídios, assassinatos e doenças mentais, e o Madigan Army Medical Center, o hospital que funciona dentro dela, estão sendo investigados pela senadora Patty Murray, presidente do Comitê de Veteranos de Guerra do Senado norteamericano, para determinar, entre outras cosas, as razões pelas quais foi retirado o diagnóstico de ‘transtorno de estresse pos-traumático’ de 285 soldados dessa base que inicialmente haviam sido qualificados dentro dessa categoría. A razão não demorou a aparecer: o Pentágono economizou algumas centenas de milhares de dólares em tratamentos que deveria proporcionar às pessoas afetadas”.
“O interessante dessa história, é que já não é necessário voltar aos tempos de (Josef) Stalin para comprovar o papel que a psiquiatria pode cumprir como instrumento de poder. Desde alguns anos, não é novidade que um imenso setor da psiquiatria mundial se converteu em ‘jardineiro fiel’ (para usar o título da novela de John Le Carré) dos interesses da indústria farmacêutica. O DSM ‘fabrica’ diagnósticos conforme as necessidades do mercado. Em poucas palavras: os laboratórios descobrem uma droga, e a psiquiatria justifica seu uso criando uma categoria diagnóstica ‘ad hoc’”.
“E para completar o negócio, que melhor ideia que converter tudo em ‘doenças’, ‘transtornos’ ou ‘desordens’? Não satisfeitos com isso, os laboratórios encontraram um novo filão: a infância. Por que esperar que o indivíduo cresça para convertê-lo em consumidor de fármacos psiquiátricos, se existem centenas de milhões de crianças no mundo que podem ser clientes imediatos? Apenas é necessária a colaboração de burocratas, técnicos e psiquiatras que compreendam o potencial em jogo. O DSM-5 inclui transtornos tais como a ‘rebeldia’ à autoridade. Os políticos, convertidos em servos do poder econômico global, veem com interesse a possibilidade de contar com uma medicação, ‘cientificamente’ avalizada, para corrigir desde a infância qualquer possibilidade de questionamento. Melhor prevenir desde que os cidadãos são pequenos, especialmente agora que vamos retornando aos índices de exploração e servidão dos tempos de Dickens. Stanislaw Lem, o escritor de ficção científica, estava certo quando estabeleceu que o século XIX havia sido o da revolução industrial, o XX o da revolução tecnológica, e o XXI o da revolução química. O presidente da Sociedade Espanhola de Psiquiatria, o doutor Jerónimo Saiz, está empenhado em promover uma campanha para que o governo aprove uma lei que permita a administração de um antipsicótico chamado Xeplio, inclusive contra a vontade do paciente. Orwell e Huxley não teriam tamanha imaginação”.
Luciano Lutereau não fica atrás: “Minha principal observação sobre o DSM é que só com abjeção se pode reconhecê-lo como um manual de diagnóstico, já que o caráter estático de suas classificações descritivas desconhece o carácter de processo que um diagnóstico deve ter para ser preciso. Além disso, um diagnóstico sempre se faz em função de uma orientação de tratamento; se não, deixa de ser operativo e potencialmente se torna uma ferramenta de controle social. Em terceiro lugar, o DSM recai numa predicação sobre o ser do sujeito a partir da média, quando o sofrimento é aquele que escapa à norma. Aqui não seria demais lembrar dos trabalhos de (Georges) Canguilhem que distinguem norma e normalidade. Mas os usuários atuais do DSM não só ignoram a história da medicina, como deixaram de lado o mais básico da psiquiatria clássica e os conceitos fundamentais da psicopatologia, a favor de uma sorte de condutismo farmacológico. Por último, uma observação sobre o sintoma: no DSM, o sintoma é uma conduta, um hábito, algo a corrigir e não uma escolha que refreia a quem padece dele; por isso aqui as respostas são corretivas, e não participando na capacidade eletiva do ser falante”.
E Carlos Gustavo Motta explica que “em todas as edições do DSM é possível ler sua orientação e espírito. Sua primeira edição apareceu em 1952 e nela o termo reação refletia a influência psicobiológica de Adolf Meyer, que descarta a neurose colocando, em vez disso, transtorno, designando-o como uma representação de reações da personalidade frente a fatores psicológicos, sociológicos e biológicos. A questão confirma a disputa do clássico com o novo e o que resulta complexo de se ler diante da proximidade da filosofia pragmática cognitivista, que não é nem boa nem má, mas que exercida por certos profissionais indolentes à leitura, acaba sendo prejudicial em seus efeitos terapêuticos”.
“A classificação do DSM mais que facilitar, complica. As três estruturas freudianas, neurose, psicose e perversão, são eliminadas para estabelecer uma longa lista de afecções que enumeradas sob modalidades particulares, finalizam numa encruzilhada numérica e fenomenal que lhe cai bem em seu título de estatístico e que permitem via livre acesso à psicofarmacologia incluindo ao sujeito numa cura pret-a-porter, colocando-o numa profecia autorrealizada, excluindo-o de sua dimensão fantasmática. É tanto o desejo de distribuir o mundo inteiro segundo um código que uma lei universal regirá o conjunto dos fenômenos: dois hemisférios; cinco continentes; masculino e feminino; animal e vegetal; singular e plural; direita/esquerda; quatro estações; cinco sentidos, etc. Assim, o primeiro ajuste da denominação na saúde mental do século XXI, o postergado DSM-5, começará a regir tanto nos foros judiciais (os laudos periciais, por exemplo, se ajustam a esta característica) como nas mentes brilhantes ou o que resulta mais inquietante, aqueles profissionais que devem se ajustar à norma para medicar e deixar suas almas inquietas satisfeitas, plenas de ‘furor sanandis’”.
Silvia Elena Tendlarz diz que “Freud se ocupou de distinguir o luto normal do patológico. A tristeza é parte do luto, do relato lento de lembranças que nos permite, recordando, esquecer. Dos artistas e seu espírito soturno, passando pela melancolia, com o novo DSM nos deparamos com uma metamorfose: agora a tristeza pela perda de um ser querido não é a expressão da dor que possibilita novas formas de encontro senão um transtorno, uma desordem. Mas o certo é que ninguém se salva dessa desordem: a vida e a morte são lados de uma única moeda e dão sentido à vida. Transformar o luto numa patologia que deve ser medicada é impedir dar adeus no tempo necessário a cada um e voltar a encontrar nas lembranças aquela pessoa que foi parte de nossas vidas”.
Se restava alguma dúvida, em sua viagem aos Estados Unidos Freud não hesitou em dizer que a psicanálise -nesse “mundo perfeito- podia ser uma “peste”. O que não imaginou foram os instrumentos que tinham os nativos para se imunizar.-

[...] 1964. CHACÓN, P. DSM-5 e o universo psi: diagnósticos à medida do mercado? Disponível em http://kanzlermelo.wordpress.com/2012/04/02/clarin-com-dsm-5-e-o-universo-psi-diagnosticos-a-medida-…. Acesso em 12.03.2013 DUNKER, C. I. L. e KYRILLOS NETO, F. A crítica psicanalítica do DSM-IV: [...]