Fonte: The Freud Museum (London)
Freud em domínio público a partir de 2010
Não tenho bola de cristal, mas vou fazer uma previsão para este ano: os títulos de Freud devem ser impressos por grandes editoras.
Em setembro de 2009, completaram 70 anos da morte de Sigmund Freud (1856-1939). Pelo pouco que li da lei de direitos autorais e através de notícias na internet, a obra de Freud entrou em domínio público em 1º de janeiro de 2010. A lei de direitos autorais tem vários “poréns”, mas vamos tomar essa informação como verdadeira pelo que foi amplamente divulgado.
A notícia de que Freud “caiu” em domínio público foi publicada em inúmeros blogs no dia 1º de janeiro, data em que é comemorado o “Public Domain Day” [Dia do Domínio Público]. Uma parte do seu acervo já está disponível pela internet, mas apenas em inglês e alemão. Um outro grande estudioso da sexualidade, citado por Freud nos “Três ensaios…”, e que também morreu em 1939 é Havelock Ellis (1859-1939). A obra de H. Ellis, da mesma forma, passou para domínio público desde o começo deste ano.
Considerando que Freud é um dos pensadores mais influentes do século XX, é provável que algumas editoras estejam preparando novas traduções e revisões dos livros dele. Tive a informação que a L&PM já anunciou livros em formato de bolso para fevereiro deste ano.
A editora Imago foi criada para publicar os livros do pai da psicanálise em 1967, e cumpriu muito bem o seu papel durante todos esses anos, mas tenho a impressão que a Imago não tem a mesma possibilidade de investir nessa coleção como as maiores editoras do país.
Hoje, a Imago disponibiliza duas coleções da obra de Freud: uma chamada Edição Standard Brasileira, traduzida do inglês e com 23 volumes organizados em ordem cronológica; e uma mais recente chamada Obras Psicológicas de Sigmund Freud, traduzida do original em alemão, organizada em eixos temáticos. O eixo temático que inaugurou essa coleção foi “Escritos sobre a Psicologia do Inconsciente“, com três volumes.
Grandes editoras e novas coleções
Gostaria que editoras como a Record e Companhia das Letras publicassem a obra de Freud com um trabalho de arte de primeira linha, com constantes revisões e atualizações a cada edição. Um exemplo desse tipo de trabalho é a coleção Jorge Amado, da Companhia das Letras, que tem um trabalho editorial muito bem cuidado, inclusive com um site dedicado ao escritor baiano. O grupo editorial Record também tem belos trabalhos, como é o caso da coleção Graciliano Ramos.
Um argumento que pode ser colocado contra a publicação de Freud por grandes editoras é que a Record e a Cia. das Letras, por exemplo, não têm por hábito lançar livros de psicanálise. Além da Imago, suponho que a editora que acumula mais títulos em psicanálise é a Jorge Zahar Editor, em cujo catálogo consta a obra de Jacques Lacan (1901-1981). Por outro lado, S. Freud foi agraciado em 1930 com o Prêmio Goethe de literatura e a sua obra, principalmente em alemão, é acessível e popular. Por este motivo, não é de se esperar que Freud seja confinado a um segmento técnico.
Considero que a obra de Freud poderá tornar-se versátil através de novos formatos. Um exemplo é a edição de bolso, uma maneira inteligente de popularizar grandes clássicos. Felizmente, como mencionei acima, soube que esse projeto já está em andamento e, em fevereiro de 2010, a L&PM Editores lançará os dois primeiros volumes, O futuro de uma ilusão e Mal-estar na civilização, ambos traduzidos direto do alemão por Renato Zwick. Os volumes seguintes serão Totem e tabu e A interpretação dos sonhos (Fonte: L&PM). A L&PM tomou uma iniciativa preciosa em 2008 ao publicar “Correspondência” (tradução de Kristina Michaelles), que é a reunião do material escrito entre S. Freud e Anna Freud durante 34 anos.

Capa do livro "Correspondência"
A Edição Standard de Freud já foi vendida em formato eletrônico (versão CD-ROM), mas não há mais esse produto do mercado. Não sei a qual conclusão a Imago chegou, mas pode ser que em breve essa opção seja reconsiderada por outras editoras. Um exemplo bem sucedido desse formato são os dicionários, na maioria vendidos com um CD encartado para consulta pelo computador. Quanto aos e-books, a livraria Amazon já disponibiliza alguns títulos de Freud em formato do Kindle, mas todos em inglês.
Atualmente, a minha experiência como consumidor dos livros de Freud não é boa. Tenho dificuldade de encontrar os livros dele nas livrarias. Na Livraria Saraiva (antiga Siciliano) que fica próxima do meu trabalho, no shopping Liberty Mall, encontro normalmente no máximo quatro volumes da Edição Standard. As únicas livrarias aqui de Brasília que costumam ter todos os volumes são a Livraria Cultura e a Fnac. Resolvi esse problema quando decidimos comprar a coleção completa em uma promoção da Submarino.
Pois é, tenho a Edição Standard completa e os três volumes da nova tradução, publicados também pela Imago e, por isso, pensarei bem antes de adquirir outra edição. Mas vejo que a obra-prima de Freud merece uma atenção maior quando acho falhas de impressão, erros de digitação ou algo do gênero. Como a Imago publica essa obra há mais de 40 anos, eu esperava que a Edição Standard estivesse mais madura, sem defeitos dessa natureza.
Portanto, espero que minha previsão se torne real e que as editoras, inclusive a Imago, estejam trabalhando para colocar nas livrarias novas coleções de Freud. De preferência, mais baratas e melhores. Afinal, dizem os economistas que a concorrência produz exatamente esse efeito no mercado.

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Então vc acha, que a edição da imago não é uma boa oportunidade?
Para muitos textos, não existe outra tradução além da realizada pela Imago, mas as novas traduções do alemão corrigem erros antigos. De qualquer forma, a tradução da Imago também tem seus pontos positivos.
Na minha opinião, as novas edições são melhores, mas isso é apenas uma opinião. Talvez o livro “As Palavras de Freud” (Companhia das Letras) possa ajudá-lo a conhecer os problemas na tradução de Freud.
Olá, Vladimir.
Gostei do que li aqui, mas, por eu ser exigente (de forma um tanto ridiculamente exagerada algumas vezes), estou inseguro quanto à leitura que farei da tradução para a “Edição Standard” da Imago.
Conheço, praticamente, nada sobre psicanálise. Ganhei dos meus pais essa coleção mais “Escritos” do Lacan. Isso aconteceu só por eu estar fazendo análise com uma lacaniana. Levando isso em conta, entenda que – antes eu nunca tive interesse suficiente que me levasse a ler qualquer texto de psicanálise. Fiquei curioso, quero começar a ler, mas não sei por onde inicio as leituras.
Que cuidados devo tomar? O que lhe parece falho nessa coleção da Imago?
Oi Guilherme,
Recomendo que leia os volumes de “Obras Completas de Sigmund Freud” lançados pela Companhia das Letras. A coleção da Imago peca por acumular problemas tanto da tradução alemão-inglês quanto da inglês-português. Existem textos dos tradutores Marilene Carone e Paulo César de Souza que acusam quais os erros cometidos nas traduções da Edição Standard, mas infelizmente os textos não são fáceis de encontrar. Eu apenas os encontrei em sebo, quando comprei “Sigmund Freud e o Gabinete do Dr Lacan”, organizado pelo Paulo César.