Diogo Mainardi, colunista da revista Veja e integrante do programa Manhattan Connection (GNT), escreveu em seu blog um post intitulado “Porky’s contra a liberdade“, no qual faz críticas às sugestões do Conselho Federal de Psicologia para debate na Conferência Nacional de Comunicação.
O CFP, por sua vez, divulgou em seu site uma resposta ao post de Diogo Mainardi. Vou transcrever aqui trechos de ambas as partes para que o leitor entenda do que se trata.
[Diogo Mainardi]
Lula tem de parar de alisar os cabelos. Em 14 de dezembro, ele inaugurará a Confecom. Por extenso: Conferência Nacional de Comunicação. Uma das propostas encaminhadas à Confecom pelo Conselho Federal de Psicologia é proibir a propaganda com pessoas de cabelos alisados, com o argumento de que ela pode causar “transtornos de toda ordem”, comprometendo “a integridade física e psicológica” de quem a assiste. O que dizer de Lula? O que dizer de seu cabeleireiro Wanderley?
A Confecom é igual à Ancinav. Ela é igual também ao CFJ. A cada dois anos, o “subperonismo lulista” cria uma sigla para controlar a imprensa. Atacando em duas frentes: editorial e comercial. Inicialmente, as empresas do setor concordaram em participar da Confecom. Depois, elas se deram conta da armadilha preparada por Franklin Martins e pularam fora. Só restaram entidades como CUT, Abragay e Conselho Federal de Psicologia. Que, além de proibir a propaganda com pessoas de cabelos alisados, recomenda proibir igualmente a propaganda de carros, porque “o estímulo ao transporte individual ofusca as lutas por um transporte público de qualidade” e aumenta “o número de mortes em acidentes de trânsito”.
[CFP]
No texto que recebe a interpretação distorcida de Mainardi, o CFP aponta o papel dos meios de comunicação no reforço de um padrão estético único, que busca anular as variedades de formas de ser, de parecer, delimitando as características físicas reconhecidas como legítimas. Padrões de beleza inalcançáveis geram conflitos, sofrimentos, baixa auto-estima, transtornos de toda ordem.
No que se refere à proposta do CFP para a discussão das relações entre mídia e trânsito, de fato o CFP questiona a ode da publicidade à velocidade, comprovadamente relacionada ao problema dos acidentes e mortes no trânsito. Também propõe que se debata o papel da mídia na construção social do predomínio do transporte individual sobre o coletivo – mais ambientalmente sustentável, mais viável para as grandes cidades, como é amplamente sabido. Infelizmente, o recorte escolhido pelo colunista apenas ironiza esta importante discussão, que ao cabo questiona o fato de a publicidade no Brasil ser auto-regulada, sem que haja qualquer mecanismo de participação da sociedade neste tema que a concerne.
Não quero entrar muito [tentarei me conter] no mérito da discussão, mas já manifestei aqui minha crítica à vocação esquerdista do CFP e ao seu interesse obsessivo por políticas sociais.
Mesmo que haja ironia (e Diogo Mainardi é habilidoso nisso) no post dele, há uma questão, não elaborada da forma como faço aqui, que merece atenção: o CFP deve militar para que a sociedade crie seus próprios instrumentos de educação através da mídia (como é o caso do Common Sense Media) e deixar de patrulhar os anunciantes de televisão. No mundo atual, não cabe mais um Estado regulador de televisão e internet.
Vejo hoje que alguns Conselhos travam uma abordagem mais próxima e mais sincera com a população, através de campanhas por exemplo, e isso é o que eu sinto falta por parte do CFP. Apenas atacar a Veja e Mainardi parece ser uma atitude demasiadamente míope.
Eu diria que o discurso do CFP insiste na velha fórmula falida dos regimes socialistas: promover a revolução “popular” a troco da paranoia e do maniqueísmo. Não vamos esquecer: as famílias ainda estão de porte dos seus controles remotos e podem refletir (com ou sem o CFP) para fazer o melhor uso possível deles.


13 comments
Comments feed for this article
20/11/2009 às 9:21
Felipe Stephan Lisboa
Vladimir,
Penso que talvez os dois lados estejam equivocados. Mas Diogo Mainardi é, sem sombra de dúvida, um babaca. É o representante maior da direita podre e manipuladora. Ele e sua revista! Quanto ao CFP, formado tradicionalmente pelos sócio-históricos da PUC, não há dúvida que pendem para a esquerda (alguns de forma radical), mas entre um e outro ainda fico com o CFP. Ainda acho melhor uma esquerda equivocada e exagerada do que qualquer direita…
Ótimo post, Vladimir. Eu estava a par desta discussão… Valeu!
20/11/2009 às 10:11
Vladimir Melo
Felipe,
Eu gostaria mesmo de não encontrar tantas “conquistas” políticas do CFP no site deles. Gostaria é que houvesse conquistas para os psicólogos. Mas, felizmente ou infelizmente, o CFP existe por força de uma lei e acaba aparecendo mais para opinar sobre tudo e todos do que para trabalhar em favor da psicologia. Nesse caso mesmo, acho que o Sistema Conselhos poderia organizar discussões com psicólogos e com a sociedade sobre mídia e comportamento.
Como psicólogo, e depois de muitas lutas frustradas com CRP/CFP, digo o seguinte: Diogo Mainardi mirou no que viu e acertou o que não viu. Ou talvez tenha visto. O CFP é excessivamente politizado e pouco envolvido com o profissional da psicologia.
Obrigado pelo comentário. Abraço.
20/11/2009 às 10:46
Felipe Stephan Lisboa
É verdade, Vladimir… Cadê o CFP lutando pela aprovação do piso salarial dos psicólogos? E pela fixação de uma carga horária semanal menor e mais adequada ao nosso tipo de trabalho? E fiscalizando os concursos públicos que oferecem salários miseráveis e péssimas condições de trabalho? Eles preferem fazer campanhas sobre grandes temas (maioridade penal, comunicação, sistema prisional, etc.) quando deveriam, também e principalmente – e está teoricamente é a função deles – representar os profissionais psicólogos, que trabalham muitas vezes com péssimos salários e em tenebrosas condições de trabalho. Talvez seja necessário ir do macro ao micro, sem esquecer do macro, óbvio, mas valorizando, essencialmente, o trabalhador psi… Nas próximas eleições do CFP e CRPs temos de ser bastante cuidadosos e atentos…
20/11/2009 às 9:34
Felipe Stephan Lisboa
OBS: eu estava por fora desta discussão…
21/11/2009 às 14:06
Kelly Karine de Souza Castro
Olá Vlad e Chris,
Valeu pelas atualizações…
De fato, eu estava fora desta informação… Mas cá entre nós, é tanto tema que REALMENTE merece atenção do Federal que é muito frustrante perceber que existe várias formas de alienação, inclusive das questões importantes para o exercício da Psicologia e do Psicólogo. A sensação que fica é de “engordo” e “cortina de fumaça”… Vamos fazer de conta que somos censores, sociólogos, assistentes sociais, filósofos, (com o devido respeito a todas estas profissões), ecologicamente corretos, e etc, e depois vivermos de fotossíntese…. Cadê o nosso Conselho de PSICOLOGIA – Profissão ???
Parabéns pelo tema!
Beijos Kelly
23/11/2009 às 14:23
Vladimir Melo
Oi Kelly,
Fico satisfeito de saber que outros colegas compartilham da nossa opinião. Acompanhando o pensamento do Felipe acima, espero que apareça alguma chapa interessante (e interessada na figura do psicólogo) nas próximas eleições. No mais, vamos continuar com as nossas reivindicações.
Abraço.
24/11/2009 às 16:18
Enrique
Muito bom o post Vladimir. Provoca discussão. Recebi em casa, pelo correio, divulgação deste evento de comunicação e fiquei me perguntando… com tanto evento sendo realizado e tanto mais a ser realizado de interesse da psicologia pq é que este está sendo “apoiado” pelo sistema conselhos? afinal algum custo teve a impressão e envio deste material (no mínimo). Com a sugestiva provocação do Mainardi e o comentário seu e dos demais colegas fico ainda mais curioso sobre o foco, as motivações e interesses destes nossos representantes nos conselhos.
OBS: e ao nosso colega Felipe, eu jamais preferiria uma esquerda equivocada e exagerada a uma direita… Cuidado meu amigo…
24/11/2009 às 17:56
Felipe Stephan Lisboa
Concordo, Enrique… eu me exaltei!!!
24/11/2009 às 20:47
Vladimir Melo
Enrique,
Um exemplo da falta de empenho do CFP com o profissional da psicologia é a escassa discussão que a instituição proporcionou neste que é considerado Ano da Psicoterapia.
Em lugar disso, temos um grande empenho do CFP para coordenar a Confecom.
Quanto às motivações, não as conheço, mas imagino que sejam políticas. Acho pouco provável que essa questão seja uma prioridade na opinião dos psicólogos.
24/11/2009 às 16:33
Leonardo Fd Araujo
Prezados colegas,
É muito triste de ver onde o nosso dinheiro é aplicado. Todo ano pagamos nossa anuidade, e o que temos em troca?
A polêmica faz parte da mídia, sem isso a “máquina não anda”. Regular a mídia não é atribuição de psicólogo, aliás, não é atribuição de ninguém. Muito bem lembrado pelo colega Vladmir, “as famílias ainda estão de porte dos seus controles remotos e podem refletir (com ou sem o CFP) para fazer o melhor uso possível deles.”
Mas como disse o nosso colega Felipe, cade a busca da melhoria da nossao profissão? Em concursos públicos somos considerados atividade de “2ª classe”, com salários ridiculamente baixos.
Fico até magoado quando chega o 27 de agosto, sabendo que nenhuma propaganda passará na TV e que nenhum outdoor ou jornal lembrará de nós!
Boa parte da culpa é nossa, somos muito desunidos, mas a outra parte é a do sistema conselhos, não tem o que negar.
Os CRPs e o CFP deveriam investir em campanhas de esclarecimento, levando para a população um pouco mais sobre a psicologia e os psicólogos.
Nós, “psico-blogueiros” estamos prestando um serviço para a profissão. Procurando ao menos levar a conhecimento público a nossa atividade.
Um abraço
Leonardo
24/11/2009 às 20:57
Vladimir Melo
Leonardo,
Concordo com você e continuaremos a informar os psicólogos sempre que preciso.
Precisamos nos manter atualizados e nos pronunciar em relação ao que as instituições de psicologia fazem (ou deixam de fazer).
Obrigado pela participação.
26/11/2009 às 15:03
Esqueceram de mim | Kanzler Melo Psicologia
[...] essas questões aqui levantadas possam justificar os comentários do post “Mainardi contra CFP“, que escrevi recentemente. Posts [...]
15/12/2009 às 16:20
Esqueceram de mim « Kanzler Melo Psicologia
[...] essas questões aqui levantadas possam justificar os comentários do post “Mainardi contra CFP“, que escrevi [...]