A querela dos pediatras

By Vladimir Melo

Brasília amanheceu ontem preocupada com a situação da saúde. Embora os jornais tenham publicado notícias sobre o protesto dos pediatras, imagino que muitas pessoas ficaram surpresas ao ter que pagar consulta particular para essa especialidade. Os pediatras voltam, hoje, a atender por convênios, mas estipularam que os planos de saúde têm até o dia 15 de julho para entrar em acordo. Do contrário, os pediatras vão rescindir os contratos com planos de saúde.

A última notícia é que o CRM-DF deu apoio ao movimento e afirmou que outras especialidades vão pegar carona no boicote.

Posso comentar o assunto sob vários aspectos. Em primeiro lugar, falo como pai. Acho que o impacto do aumento de honorários (de R$20-40 para R$90-100) será repassado aos usuários e deve pesar na mensalidade. Se outras especialidades estiverem no pacote de reajuste, os planos de saúde (que já são caros) serão acessíveis para uma parcela cada vez menor da sociedade. Não conseguir pagar um plano de saúde para os filhos é uma grande preocupação para os pais.

Falando ainda como pai, mas também como cidadão que lê jornal diariamente, observo que movimentos como esse despertam certa antipatia. Os pais que foram surpreendidos com essa notícia ao chegar em um hospital ontem, com absoluta convicção, sentiram-se desamparados com o protesto. Mesmo que os pediatras tenham ótimos argumentos, é de se esperar que a imagem do médico seja prejudicada. Querer que um pai que leva o seu filho ao pronto-socorro seja compreensivo com a causa dos médicos é pedir demais. E, num determinado momento, aquela parte do juramento de Hipócrates, que fala que a saúde do paciente é a primeira preocupação, será severamente lembrada pelos pacientes aos médicos.

Como psicólogo, sinto uma tremenda inveja pela mobilização como ocorreu o protesto. E mais inveja porque os psicólogos vão demorar uns cem anos para tomar essa coragem. Porém, como eu já disse, não sou a favor de algo radical. E ninguém tem tanto motivo para reclamar como os psicólogos, que atendem cada paciente em consulta durante 50 minutos (ou mais) e lutam arduamente para que os seus honorários sejam equiparados aos dos médicos.

Achar uma solução que concilie protesto, ética e apoio popular não é algo fácil, mas deve ser o caminho para uma mobilização.

Ah, se os médicos conseguirem o aumento pleiteado, os psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, entre outros, vão iniciar suas modestas reivindicações. Isso vai ocorrer de forma arrastada, como sempre foi, mas não há dúvida que a bomba vai estourar na mão do usuário.

O DFTV 1ª edição também cobriu o protesto dos pediatras. Veja abaixo o vídeo da matéria:

Tags: ,

3 Respostas para “A querela dos pediatras”

  1. Christiane Kanzler Barbosa Nunes Disse:

    A realidade é que a área da saúde tem sido desvalorizada há muito tempo e vai chegar uma hora (talvez esteja próxima) que isso vai ficar insustentável.
    Isso para médicos, psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, enfermeiros,… todos nós!
    Acho que temos uma formação difícil, um aprimoramento oneroso, um dia-a-dia exigente e estressante e merecemos ser bem remunerados sim!
    Não é porque lidamos com vidas, com sentimentos, que devemos fazer voto de pobreza e viver com dificuldades na nossa "missão" ou no nosso "sacerdócio".
    Poucos dos meus colegas de faculdade efetivamente trabalham como psicólogos, sendo ainda a minoria da área clínica. Muitos eram sonhadores clínicos, que não deram conta de trabalhar uma hora e receber metade dos R$ 24,00 que os convênios repassavam à clínica, dois meses após o atendimento, e quando não havia glosa!
    Eles têm o direito de abandonar a profissão, mas será esse o caminho? Mas o que seria a medicina sem os médicos, a psicologia sem os psicólogos? A saúde está fadada ao abandono? Vamos todos cursar Direito e estudar para concurso? Trabalhar no Judiciário ou no Legislativo, onde não há plantão, doentes, morte, pacientes em surto, adolescentes com problemas, crianças com medo?
    Não acho que o caminho escolhido foi o melhor, mas discordo que os médicos são os vilões, os "exploradores" e "mercantilistas" que as pessoas têm dito.
    Se nós, profissionais da saúde, ganhamos pouco e os pacientes pagam muito pelo plano de saúde e não recebem serviços de qualidade sempre que precisam, algo está errado!
    Nenhuma operadora de plano de saúde se manifestou. Nem a CASSI, que perdeu nos últimos dias 7 dos 14 hospitais credenciados no DF. Mesmo com esse estardalhaço, não apresentaram qualquer contra-proposta ou planilha de custos. Será que têm algo a dizer? Ou o não-dito fala por elas?

  2. Vladimir Melo Disse:

    Eu concordo. Só temos que chegar a um equilíbrio entre o valor justo dos honorários e o que os usuários podem pagar.
    Talvez o equilíbrio seja definido com o auxílio do Ministério Público ou da ANS, não sei quem poderia intervir da melhor maneira. Não podemos é deixar que os usuários fiquem desamparados.
    Os planos de saúde, sem dúvida, devem ceder bastante para que os profissionais de saúde tenham melhores condições e continuem oferecendo serviços de qualidade.

  3. Christiane Kanzler Barbosa Nunes Disse:

    Concordo com você, Vladimir.
    O que lamento é que as operadoras não tentaram negociar ainda nem apresentaram justificativa para os baixos honorários. Mesmo que algumas tenham feito reajustes acima da inflação, se o valor-base for muito baixo, a insatisfação vai continuar.
    Ainda hoje, em 2009, várias operadoras adotam como referência de honorários a Tabela AMB/92. Imagine: valores de 17 anos atrás…
    Imagino que os R$ 90,00 – R$ 100,00 pedidos são inviáveis na maioria dos casos. É o valor que o SIS remunera, mas seu plano é de auto-gestão (não visa lucro), deve ter uma boa ajuda do Senado Federal e ter uma co-participação dos usuários, o que os planos de saúde convencionais não têm. São uma realidade à parte.
    De repente, adotar a CBHPM atualizada e atrelar o reajuste dos contratos dos credenciados aos reajustes dos contratos dos usuários seria um grande avanço. Ideal, mas seria.

Deixe uma resposta