Há muitas pessoas que consideram a psicanálise uma área de conhecimento obscura, pornográfica, restrita aos intelectuais e que usa e abusa de jargões inexplicáveis. Contudo, trarei aqui exemplos do quanto grandes psicanalistas esforçaram-se para atingir o público leigo e indico esses como os caminhos pelos quais esses mitos podem ser derrubados.

Sigmund Freud proferiu suas “Conferências Introdutórias sobre Psicanálise” (Imago), em 1916, a um público supostamente desconhecedor da psicanálise. Essas conferências podem ser consideradas resumos das descobertas de Freud durante o primeiro período da psicanálise. O texto é escrito em uma linguagem acessível e direta, sem obstáculo para o leitor comum. Na realidade, em vários países, a obra de Freud é reconhecida por essas características e o caráter hermético é atribuído por muitos especialistas à tradução (Tradutore, Traditore). A prova disso, como já mencionei em outros posts, foi o prêmio literário Goethe concedido a Freud em 1930.

Donald Winnicott fez cerca de 50 palestras radiofônicas para a BBC entre 1939 e 1962, quase todas dirigidas aos pais. O livro “Conversando com os Pais” (Martins Fontes) reúne todas as palestras em rádio feitas depois de 1955. A edição é organizada por Clare Winnicott, Christopher Bollas, Madeleine Davis e Ray Shepherd, e a introdução é do notável pediatra T. Berry Brazelton. As palestras radiofônicas serviram ainda de base para o livro “A criança e o seu Mundo” (LTC).

Conversando com os Pais (Martins Fontes)

Parte da fama de indecifrável conferida a Jacques Lacan está relacionada ao fato de sua obra ter sido extraída de seus seminários. Ao converter uma obra falada em escrita, muito se perde, especialmente as referências. O prejuízo da conversão é maior pelo fato de Lacan ter elaborado a sua releitura de Freud valendo-se de conceitos oriundos de outras áreas de conhecimento, como matemática, lógica e linguística. Nesse caso, a recuperação dessas referências é fundamental, mas disso encarregaram-se os seus sucessores.

Eu gosto de recomendar a leitura dos livros acima citados para pessoas que se interessam em travar um primeiro contato com Freud e Winnicott. Não é por acaso que psicanalistas, como José Outeiral, são convidados por escolas para proferir palestras a professores, pais e alunos. A abordagem simples e sincera é a melhor maneira de despertar nos leigos o interesse pelo conhecimento.

Existem também projetos sociais que oferecem tratamento psicanalítico a pessoas de classes sociais mais baixas. O precursor desse tipo de projeto em Brasília foi o professor Richard Bucher, que idealizou e implementou um modelo de recuperação de dependentes químicos baseado na abordagem psicanalítica. O Centro de Orientação Sobre Drogas e Atendimento a Toxicômanos (CORDATO), foi inaugurado por Bucher e uma equipe multiprofissional em 1986, com o apoio da Universidade de Brasília.

Apesar de sempre haver aqueles que se alimentam de mitos, os conceitos psicanalíticos fazem parte do vocabulário popular e, depois de mais de cem anos do seu emblemático “A Interpretação dos Sonhos“, Freud continua a influenciar pensadores. E não perco a esperança de que a obra de Freud em domínio público sirva para que a psicanálise torne-se ainda mais popular, e alcance algo próximo do que ocorre em outros países, como na Argentina.

Minha irmã trouxe da sua última viagem aos Estados Unidos um presente para mim, o livro “The Wolf-Man by the Wolf-Man: The double story of Freud’s most famous case“, publicado pela Basic Books. Tenho a impressão que o livro está esgotado, pois não encontrei informações sobre ele no site da editora, nem exemplares novos à venda.

“The Wolf-Man by the Wolf-Man” foi editado por Muriel Gardiner, tem prefácio de Anna Freud e é dividido em três partes. A primeira parte é chamada de “The Memoirs of the Wolf-Man” [A autobiografia do Homem dos Lobos], a segunda recebeu o título “Psychoanalysis and the Wolf-Man” [Psicanálise e o Homem dos Lobos] e a última parte é “The Wolf-Man in the later life” [O Homem dos Lobos em vida posterior]. Além disso, há uma seção de fotos de família, na qual aparecem: o Homem dos Lobos (criança e adulto), a mãe, o pai, a irmã Anna, a “Nanya” e a esposa. A segunda parte é a que contém o caso, de Sigmund Freud, e um suplemento, de Ruth Mack Brunswick.

O livro tem 366 páginas e ainda existem exemplares à venda na livraria Amazon, porém todos usados. A Amazon informa o estado de cada exemplar e alguns deles estão em estado muito bom.

O nome real do Homem dos Lobos é Sergei Pankejeff (1886-1979), um aristrocrata russo que recebeu essa alcunha por causa de um sonho no qual viu uma árvore com lobos sentados nos galhos. O desenho do próprio paciente ilustra a capa do livro.

James Strachey, editor inglês de Freud, afirma que esse é o caso mais elaborado e o mais importante de todos os casos clínicos de Freud. O caso foi publicado em 1918, com o título “História de uma neurose infantil”, e faz parte do volume XVII da Edição Standard Brasileira, da Imago.

A Jorge Zahar Editor publicou uma série de depoimentos prestados por Sergei Pankejeff à jornalista austríaca Karin Obholzer, em uma entrevista realizada nos anos 70. O nome do livro é Conversas com o Homem dos Lobos.

Como há pouco dito aqui, a L&PM Editores lançará livros de Sigmund Freud em versão de bolso neste ano. Os primeiros livros serão “O futuro de uma ilusão” e “O mal-estar na cultura“.

As capas foram apresentadas ontem no site da editora e também foram confirmadas as publicações de “Totem e tabu“, para abril, e “A interpretação dos sonhos“, para novembro. A foto das capas é a mais notória de Freud, com o seu indefectível charuto. Abaixo estão as imagens das capas e a notícia na íntegra:

L&PM - O futuro de uma ilusão (capa)

L&PM - O mal-estar na cultura (capa)

A L&PM Editores apresenta as capas de seus primeiros lançamentos da obra do pai da psicanálise. O futuro de uma ilusão e O mal-estar na cultura apresentam a crítica de Freud à religião e seu retrato da condição humana – o eterno conflito entre o instinto e a cultura. As duas obras foram traduzidas por Renato Zwick e receberão um ensaio biobibliográfico de Paulo Endo (psicanalista e professor da USP) e Edson Sousa (também psicanalista e professor da UFRGS).

O futuro de uma ilusão conta com revisão técnica e prefácio da psicanalista Renata Udler Cromberg, já em O mal-estar na cultura, essa tarefa coube a Márcio Seligmann (professor de teoria literária na Unicamp e estudioso do Freud).

Em abril, a editora lançará Totem e tabu, e em novembro, Interpretação dos sonhos. (Fonte: L&PM Editores, 27/01/10)

Os livros ainda não constam no catálogo, mas logo que estiverem lá, eu atualizo o post e divulgo o preço das publicações.

Fonte: The Freud Museum (London)

Freud em domínio público a partir de 2010

Não tenho bola de cristal, mas vou fazer uma previsão para este ano: os títulos de Freud devem ser impressos por grandes editoras.

Em setembro de 2009, completaram 70 anos da morte de Sigmund Freud (1856-1939). Pelo pouco que li da lei de direitos autorais e através de notícias na internet, a obra de Freud entrou em domínio público em 1º de janeiro de 2010. A lei de direitos autorais tem vários “poréns”, mas vamos tomar essa informação como verdadeira pelo que foi amplamente divulgado.

A notícia de que Freud “caiu” em domínio público foi publicada em inúmeros blogs no dia 1º de janeiro, data em que é comemorado o “Public Domain Day” [Dia do Domínio Público]. Uma parte do seu acervo já está disponível pela internet, mas apenas em inglês e alemão. Um outro grande estudioso da sexualidade, citado por Freud nos “Três ensaios…”, e que também morreu em 1939 é Havelock Ellis (1859-1939). A obra de H. Ellis, da mesma forma, passou para domínio público desde o começo deste ano.

Considerando que Freud é um dos pensadores mais influentes do século XX, é provável que algumas editoras estejam preparando novas traduções e revisões dos livros dele. Tive a informação que a L&PM já anunciou livros em formato de bolso para fevereiro deste ano.

A editora Imago foi criada para publicar os livros do pai da psicanálise em 1967, e cumpriu muito bem o seu papel durante todos esses anos, mas tenho a impressão que a Imago não tem a mesma possibilidade de investir nessa coleção como as maiores editoras do país.

Hoje, a Imago disponibiliza duas coleções da obra de Freud: uma chamada Edição Standard Brasileira, traduzida do inglês e com 23 volumes organizados em ordem cronológica; e uma mais recente chamada  Obras Psicológicas de Sigmund Freud, traduzida do original em alemão, organizada em eixos temáticos. O eixo temático que inaugurou essa coleção foi “Escritos sobre a Psicologia do Inconsciente“, com três volumes.

Grandes editoras e novas coleções

Gostaria que editoras como a Record e Companhia das Letras publicassem a obra de Freud com um trabalho de arte de primeira linha, com constantes revisões e atualizações a cada edição. Um exemplo desse tipo de trabalho é a coleção Jorge Amado, da Companhia das Letras, que tem um trabalho editorial muito bem cuidado, inclusive com um site dedicado ao escritor baiano. O grupo editorial Record também tem belos trabalhos, como é o caso da coleção Graciliano Ramos.

Um argumento que pode ser colocado contra a publicação de Freud por grandes editoras é que a Record e a Cia. das Letras, por exemplo, não têm por hábito lançar livros de psicanálise. Além da Imago, suponho que a editora que  acumula mais títulos em psicanálise é a Jorge Zahar Editor, em cujo catálogo consta a obra de Jacques Lacan (1901-1981). Por outro lado, S. Freud foi agraciado em 1930 com o Prêmio Goethe de literatura e a sua obra, principalmente em alemão,  é acessível e popular. Por este motivo, não é de se esperar que Freud seja confinado a um segmento técnico.

Considero que a obra de Freud poderá tornar-se versátil através de novos formatos. Um exemplo é a edição de bolso, uma maneira inteligente de popularizar grandes clássicos. Felizmente, como mencionei acima, soube que esse projeto já está em andamento e, em fevereiro de 2010, a L&PM Editores lançará os dois primeiros volumes, O futuro de uma ilusão e Mal-estar na civilização, ambos traduzidos direto do alemão por Renato Zwick. Os volumes seguintes serão Totem e tabu e A interpretação dos sonhos (Fonte: L&PM). A L&PM tomou uma iniciativa preciosa em 2008 ao publicar “Correspondência” (tradução de Kristina Michaelles), que é a reunião do material escrito entre S. Freud e Anna Freud durante 34 anos.

Capa do livro "Correspondência"

A Edição Standard de Freud já foi vendida em formato eletrônico (versão CD-ROM), mas não há mais esse produto do mercado. Não sei a qual conclusão a Imago chegou, mas pode ser que em breve essa opção seja reconsiderada por outras editoras. Um exemplo bem sucedido desse formato são os dicionários, na maioria vendidos com um CD encartado para consulta pelo computador. Quanto aos e-books, a livraria Amazon já disponibiliza alguns títulos de Freud em formato do Kindle, mas todos em inglês.

Atualmente, a minha experiência como consumidor dos livros de Freud não é boa. Tenho dificuldade de encontrar os livros dele nas livrarias. Na Livraria Saraiva (antiga Siciliano) que fica próxima do meu trabalho, no shopping Liberty Mall, encontro normalmente no máximo quatro volumes da Edição Standard. As únicas livrarias aqui de Brasília que costumam ter todos os volumes são a Livraria Cultura e a Fnac. Resolvi esse problema quando decidimos comprar a coleção completa em uma promoção da Submarino.

Pois é, tenho a Edição Standard completa e os três volumes da nova tradução, publicados também pela Imago e, por isso, pensarei bem antes de adquirir outra edição. Mas vejo que a obra-prima de Freud merece uma atenção maior quando acho falhas de impressão, erros de digitação ou algo do gênero. Como a Imago publica essa obra há mais de 40 anos, eu esperava que a Edição Standard estivesse mais madura, sem defeitos dessa natureza.

Portanto, espero que minha previsão se torne real e que as editoras, inclusive a Imago, estejam trabalhando para colocar nas livrarias novas coleções de Freud. De preferência, mais baratas e melhores. Afinal, dizem os economistas que a concorrência produz exatamente esse efeito no mercado.

Chain of Change é um projeto da organização Beyondmedia Education que convoca jovens ativistas a construírem juntos estratégias para combater a violência através da criação de vídeos.

O site do projeto (em inglês) funciona como uma plataforma para facilitar as discussões sobre os tópicos levantados nos vídeos. A organização Beyondmedia Education oferece aos jovens uma “flip camera”, uma espécie de filmadora de alta definição compacta, com a qual os grupos são instigados a pensar sobre a questão da violência contra mulheres e meninas nas respectivas comunidades.

O resultado dessa reflexão é transformado em vídeo e enviado ao site. A tradução de “Chain of Change” é “Corrente da Mudança” e é nesse sentido que o projeto espera aproximar os jovens e proporcionar maior conscientização da violência contra a figura feminina.

A Beyondmedia Education é reconhecida por este e outros projetos. Recentemente, Salome Chasnoff, diretora executiva da organização, foi indicada como uma das 21 líderes do século XXI e recebeu o prêmio “Ida B. Wells Award for Bravery in Journalism” [Prêmio Ida B. Wells por Coragem no Jornalismo]. Um dos participantes desse projeto é o amigo da família Jesse Wheeler.

Em conversa com Jesse, que esteve de passagem em Brasília, eu disse o quanto o Brasil sente falta desse tipo de iniciativa. Aqui, existe maior mobilização por parte da sociedade para exigir que o governo cumpra esse papel social do que para se organizar e tomar iniciativas próprias.

Outros sites da Beyondmedia Education que merecem uma visita:

Condom Sense Education (inglês): site que tem o objetivo de educar estudantes de nível medio e adolescentes em geral sobre o vírus HIV.

WomanandPrison.org (inglês): site sobre histórias e trabalhos de arte realizados por mulheres do sistema penitenciário norte-americano.

A agenda do CRP-01 está divulgando um evento que me parece muito interessante e, por isso, também vou divulgar aqui no blog. Tenho certeza que muitos colegas de várias especialidades vão querer participar.

Entre os dias 26 e 28 de agosto será realizado o I Congresso Internacional Adolescência e Violência: Perspectivas Clínica, Educacional e Jurídica. Um evento franco-brasileiro que acontecerá em Brasília/DF.

O Congresso é fruto da confluência do trabalho de décadas de pesquisa, ensino e extensão de instituições acadêmicas, brasileiras e francesas, e de organismos internacionais que se preocupam com a organização de redes de atenção e intervenção à adolescência, particularmente no que concerne ao desenvolvimento de ações de enfrentamento dessa problemática.

Durante o evento também acontecerá o II Seminário Internacional sobre Adolescência Clínica e Cultura e o III Seminário de Saúde do Adolescente em Conflito com a Lei.

Como o evento é franco-brasileiro, haverá participação de conferencistas franceses. A propósito, o site do congresso também tem uma versão em francês.

Realização

  • Universidade de Brasília – Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica e Cultura do Departamento de Psicologia Clínica – Instituto de Psicologia
  • Universidade Católica de Brasília – Programa de Pós-Graduação em Psicologia – Mestrado em Psicologia e Curso de Graduação em Psicologia
  • Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal – SESDF
  • Université René Descartes – Laboratoire de Psychologie Clinique et de Psychopathologie – LPCP
  • Université Paris 13 – Laboratoire de Psychogénèse et Psychopathologie,- Villetaneuse
  • Collège International de l´ Adolescence – CILA – Paris

Inscrições de trabalhos no formato de Comunicações Orais e Pôster até o dia 30 de março.

Data: 26, 27 e 28 de Agosto de 2010.
Local: Brasília/DF
Outras Informações: http://www.congressoadolescencia.universa.org.br/

Até dia 31/01/10, as inscrições estão mais baratas: R$ 300 para profissionais e R$ 150 para estudantes.